Ecstasy em Porto Alegre: a relação entre o perfil do usuário e o modelo “médico-sanitário-jurídico”

REVISTA SOCIOLOGIA JURÍDICA – ISSN: 1809-2721

Número 05 – Julho/Dezembro 2007

Ecstasy em Porto Alegre: a relação entre o perfil do usuário e o modelo “médico-sanitário-jurídico”

Rafael Machado Madeira – Professor de Sociologia Geral e Jurídica do curso de Direito do Centro Universitário Ritter dos Reis. Formado em Ciências Sociais e com Mestrado e Doutorado em Ciência Política pela Universideda Federal do Rio Grande do Sul.

E-mail: madeirar@bol.com.br

Bárbara Sordi Stock – Advogada. Graduação em Direito pelo Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter). Mestrado em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS).

E-mail: barbara_stock@uniritter.edu.br

Resumo: O presente artigo visa a analisar o impacto que o perfil socioeconômico de usuários de ecstasy e o universo social a que a droga está associada têm na produção de discurso sobre este “sujeito-consumidor”. É possível identificar uma diferença no discurso acerca de usuários de substâncias ilícitas em geral e de usuários de ecstasy? O universo de análise é o município de Porto Alegre e os dados acerca do perfil dos usuários desta droga ilícita foram compilados em pesquisa de dados secundários (mídia escrita). Embora ainda em uma fase inicial, o estudo aponta para uma profícua problematização da relação entre Estado, judiciário e mídia na produção de identidades. Chama a atenção também para o fato de que o perfil socioeconômico joga papel relevante enquanto espécie de “agente neutralizador” na atribuição do estigma de “drogado” aos consumidores de ecstasy.

Sumário: 1. Introdução 2. Medicina e a criação do monopólio do uso legítimo das drogas 3. O ecstasy é uma droga como as demais? O impacto do perfil do usuário e do local de consumo na produção do imaginário coletivo sobre a droga 4. O perfil sócio-econômico do usuário de ecstasy em Porto Alegre 5. O papel do ecstasy no “universo rave” 6. Considerações finais 7. Referências bibliográficas.

Palavras-chave: Ecstasy – Rave – Drogas – Estigma.

Abstract: This paper aims at analyzing the impact that the social-economical profile of ecstasy users and the social universe to which the drug is associated have in the discourse production on such “subject-consumer”. Is it possible to identify any difference between the discourse about illicit substance users in general and ecstasy users in particular? The analysis scope covers the city of Porto Alegre, Brazil, and the data on users’ profiles has been gathered through secondary data research (written media). Though this study is still in an initial stage, it indicates a rich inquiry about the relation between the State (judiciary power) and the media for the production of identities. This study also highlights the fact that the social economic profile plays an important role as a sort of “neutralizing agent” in the attribution of the “drogadict” stigma to ecstasy consumers.

Key-words: Ecstasy – Rave – Drugs – Identity – Stigma.

  1. Introdução

Este artigo é fruto de um projeto interdisciplinar de pesquisa (sociologia e direito penal) ainda em desenvolvimento e através do qual se pretende analisar como aspectos como o perfil sócio-econômico de usuários de ecstasy e o local de consumo da droga interferem no tratamento que os mecanismos formais de controle conferem ao trabalho de combate ao seu comércio e uso. Para atingir este objetivo, o artigo traz em sua primeira seção um histórico da relação tensa entre legalidade/ilegalidade de diversas substâncias como sendo fruto da correlação entre aspectos como, por exemplo: interesses econômicos dos estados nacionais, interesses corporativos (medicina – farmacologia) e discursos massificados (senso comum) que rotulam as diferentes substâncias e os indivíduos a elas associados (comércio e uso). Logo após esta discussão introdutória, é realizada análise acerca do perfil sócio-econômico dos usuários de ecstasy, com base em dados bibliográficos e dados secundários. Logo a seguir examina-se o papel atribuído a esta substância dentro do seu principal contexto de consumo: as festas rave. Por fim, nas considerações finais são apresentados alguns dos principais achados da pesquisa até o presente momento.

Desde o seu surgimento enquanto campos autônomos de conhecimento, tanto a medicina quanto a farmacologia disputaram espaço com os antigos xamãs, curandeiros e demais lideranças religiosas/populares no que tange ao conhecimento e à manipulação das mais diversas substâncias. Tal disputa mostrou-se extremamente desigual ao longo da história por uma série de motivos. Em primeiro lugar, cabe destacar a perseguição que o conhecimento popular/nativo – “bruxaria” – sofreu sistematicamente ao longo de pelo menos três séculos na Europa e nas Américas pela Igreja católica[1]. Além deste aspecto, a simultaneidade de um discurso oficial de condenação e de estigma às drogas ilícitas e o aumento contínuo do comércio destas mesmas substâncias (interesses comerciais cada vez mais poderosos) deixavam cada vez mais explícita a contradição entre discurso oficial e prática. Retomar uma valoração positiva das drogas (gregos e romanos)[2]era algo praticamente inviável após séculos de condenação. Por outro lado, a não exploração do tráfico era algo impensável dado o inestimável potencial de lucratividade desta atividade comercial.

  1. A medicina e a criação do monopólio do uso legítimo das drogas

A alternativa que representou, pelo menos aparentemente, a resolução deste dilema foi justamente o surgimento de campos de conhecimento aos quais foi concedida pelo estado através de suas diferentes instituições (universidades, hospitais, etc) a legitimidade para pesquisar, manipular e, principalmente, permitir a comercialização das diferentes plantas e suas respectivas substâncias e propriedades. Isto é, uma determinada substância psicoativa que nas mãos do “saber popular” possui um caráter demoníaco, nas mãos de um representante autorizado pelo Estado, “perde” estas propriedades “satânicas” para retornar ao seu status neutro (dado pelos antigos). Se mesmo no auge do período inquisitorial substâncias como o ópio eram utilizadas em larga escala a partir do momento em que a Igreja católica perde poder em relação aos estados nacionais está aberto o caminho para o desenvolvimento de pesquisas envolvendo tais substâncias. Um indicador consistente deste aspecto é o fato de que somente em relação ao ópio pode-se identificar que: “No pueden ser más ilustres quienes usan abiertamente esta droga: las casas reales de Suecia y Dinamarca, Pedro el Grande y Catalina de Russia, Federico II de Prusia, María Teresa de Austria, Luis XV y XVI, Guillermo III da Inglaterra”.[3]

Ainda de acordo com este mesmo autor o ópio teve um papel relevante no surgimento, em pleno século XVI, da medicina:

“Su eficacia influye en un nuevo prestigio social de los médicos, que refuerza sus pretenciones de formar gremios profesionales. El primer Colegio médico europeo será el de Londres, que recibe de la Corona una licencia exclusiva para atender pacientes de la ciudad y sus alrededores. Algo más tarde se publican las farmacopeas más antiguas, en Nuremberg (1546) y Basilea (1561), donde las solanáceas psicoactivas son agentes válidos siempre que se combinen con opio; repasando sus recetas, vemos que hay pocas diferencias substantivas entre la composición de analgésicos y soporíferos y las infernales preparaciones de algunas brujas”.[4]

Como resultado deste processo de substituição na forma de ver a droga com base em quem a manipula (agora quem a manipula não é mais o “bruxo”, mas sim o pesquisador – médico, químico ou farmacêutico), identifica-se, principalmente a partir de meados do século XIX um avanço cada vez mais significativo da indústria farmacêutica. Como indicador deste avanço, pode-se citar a descoberta dos princípios ativos de algumas das substâncias mais conhecidas e utilizadas atualmente: a morfina (1806), a codeína (1832), a cafeína (1841) a cocaína[5] (1860), a heroína[6] (1883) e os barbitúricos (1903). A partir de então, em uma pequena maleta pode ser transportado o equivalente a centenas de quilos de plantas, folhas e raízes. Se as substâncias utilizadas pelos exércitos “bárbaros” eram substâncias demoníacas, fruto da magia pagã, substâncias como a morfina (utilizada, por exemplo, na guerra franco-prussiana em 1870-71) passam a ser consideradas como “notáveis medicamentos”. Na virada do século, substâncias como a heroína e a morfina são vendidas livremente nas farmácias e são exportadas para países orientais dado ao seu poder para “curar” os “opiomanos”. Na realidade, a sua eficiência no tratamento se dava pelo seu caráter várias vezes mais potente em relação ao ópio. A manipulação das substâncias psicoativas por agentes autorizados para tanto foi significativamente eficaz no sentido de desvincular as drogas de seu estigma tradicional.

Entretanto, esta “retomada” da valoração positiva de algumas drogas (agora ditada por interesses econômicos e comerciais cada vez mais poderosos) após séculos de repressão vai sofrer rapidamente um novo revés. Os motivos primeiros que levam a esta nova onda de repressão são baseados em sentimentos muito semelhantes aos da Igreja católica: preconceito racial e religioso. A diferença é que desde meados do século XX não será a Igreja a principal instituição responsável pela perseguição às drogas e a seus usuários, mas sim o Estado-nação moderno, particularmente, o estado que irá se tornar a maior potência ocidental do planeta: os Estados Unidos da América.

Esta reação puritana ao uso das drogas surge com base principalmente no preconceito e discriminação que as ondas de imigrantes e minorias raciais passam a sofrer nos Estados Unidos. Destarte, cada droga passa a ser vinculada a um determinado grupo religioso e/ou sócio-econômico específico: o ópio se vincula aos chineses (corrupção infantil), a cocaína passa a ser vista como uma das causas do abuso sexual dos negros, a maconha foi vinculada aos mexicanos e o álcool com a pretensa imoralidade de judeus e irlandeses. Todos estes grupos, logicamente que com variações de intensidade, passam (novamente?) a ser vistos como representantes do mal, como infiéis, imorais inferiorizados moral e economicamente. Cabe salientar aqui que outras drogas, com um potencial de causar dependência tão grande quanto as aqui vistas, permanecem “imunes” a estigma por não serem vinculadas com nenhuma minoria (barbitúricos, por exemplo).

Além deste aspecto, a disputa dos médicos com curandeiros e lideranças religiosas e populares pelo “monopólio da manipulação legítima” destas substâncias constitui-se também em uma das causas da discriminação da manipulação e do uso de substâncias psicoativas que não tenham a chancela de médicos e/ou farmacêuticos. Na busca por este monopólio, as nascentes associações farmacêutica e médica norte-americanas vinculam-se às organizações puritanas (como a Anti-Saloon League) que visavam “limpar” esta sociedade do jogo e das bebidas alcoólicas.

“Esta alianza se consuma en 1903, cuando los Plenos de ambas corporaciones declaren que ‘quien mata el cuerpo de un hombre es un ángel comparado con quien destruye el alma de otro, administrándole sin receta una droga no vendida en alguna farmacia’; la morfina, por ejemplo, tenía ‘un poder diabólico, transmutable en bendición si la dispensan terapeutas diplomados’. Dos anos más tarde, cuando el opio y la morfina ocupan el cuarto lugar entre los fármacos más vendidos en Estados Unidos, algunos líderes de estas corporaciones empiezan a declarar que su venta libre convierte a los jóvenes en criminales y a las jóvenes prostitutas – una profecía que habrá de esperar a la Prohibición para cumplirse. Pocos podían calcular que dos décadas más tarde ambas Asociaciones – la médica y la farmacéutica – iban a denunciar ante el Congreso ‘una conspiración para despojar a las profesiones terapéuticas de sus derechos acostumbrados’, pues casi 30.000 médicos – y unos 8.000 boticarios – están encarcelados por recetar o dispensar opio y morfina a policías disfrazados de adictos”.[7]

Além de ilustrar a constituição de diversos “grupos de interesse” e a relação (ora de atuação em conjunto, ora de conflito) entre os mesmos, a citação acima permite identificar, por um lado, o quão complexo é o processo de definição da identidade dos que manipulam, comercializam e dos que consomem as drogas e, por outro lado, as origens históricas e sociais do atual modelo de “guerra contra as drogas” concebido pelos Estados Unidos e implementado (através de forte pressão política e econômica) em vários países.

Talvez a primeira iniciativa de vulto nesse sentido tenha sido a instituição do chamado Volstead Act, que em meados de 1920 proíbe a venda e o consumo de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos. Neste contexto, as duas únicas formas de utilização de bebidas alcoólicas de forma legal era a utilização do vinho na “santa missa” e a utilização do álcool via prescrição médica. Se em 1905 algo em torno de 0,5% dos norte-americanos consumia algum tipo de substância psicoativa, até a véspera da instituição da lei seca, isto é, em 1919, tal percentual era ainda menor do que o registrado quatorze anos antes. Ao invés de diminuir ainda mais este percentual, a proibição, assim como ocorreu na China nove décadas antes, não só não diminui o número de consumidores como acaba gerando uma série de “efeitos colaterais”, como a corrupção policial e política, o surgimento e a consolidação do poder de grupos mafiosos, o aumento vertiginoso nos índices de violência e criminalidade, entre outros aspectos. A partir do momento em que substâncias que não estão mais sob a vigilância e controle estatal são vendidas a uma parcela cada vez maior da população de forma clandestina, o risco a que estes consumidores estão expostos aumenta significativamente. Tal aspecto permite identificar mais um efeito colateral da lei seca na área da saúde pública, qual seja, o aumento de infecções, de doenças e de mortes em função da mistura de diferentes substâncias nas bebidas comercializadas no “mercado negro” (para se ter uma idéia deste aspecto, basta citar que em doze anos de vigência da chamada lei seca pelo menos 30.000 pessoas morreram e 100.000 tiveram lesões permanentes – como cegueira ou paralisia – em função do consumo de bebidas alcoólicas que continham metanol ou outras substâncias).

Com o final da lei seca em 1933, as três principais famílias mafiosas que atuam no país, e que eram até então rivais ferrenhas entre si, passam a negociar um entendimento para superar a “crise” que se instaura com o retorno da legalização do consumo e venda de bebidas alcoólicas. E esta crise é superada quando estas famílias voltam-se ao “ramo” do comércio da heroína, há pouco tempo tornada ilegal pelo Congresso norte-americano. E é a ilegalidade desta substância que será a “tábua de salvação” do crime organizado norte-americano ESCOHOTADO (1994).

Como uma das principais conclusões desta discussão prévia, identifica-se que o uso de substâncias psicoativas é uma constante ao longo da história nas mais diferentes sociedades e o que se modifica ao longo do tempo e em cada sociedade é a forma como estas substâncias são vistas pela mídia, pela Igreja, pelos diferentes grupos sócio-econômicos e pelo Estado.

Assim como em vários países, no Brasil, o discurso que se baseia no chamado modelo médico-sanitário-jurídico (CARVALHO, 2006) possui como uma de suas principais características não somente a distinção entre os envolvidos com as drogas e as pessoas consideradas “sadias”, mas também na distinção entre usuários e traficantes levando em consideração justamente o perfil sócio-econômico. Isto é, o que este autor irá denominar como a ideologia da diferenciação:

“A principal característica deste discurso é traçar a distinção entre consumidor e traficante, ou seja, desde o interior da lógica de diferenciação, entre doente e delinqüente. Assim, sobre os culpados (traficantes) recairia o discurso jurídico, sobre o qual se extrai o estereótipo criminoso do corruptor da moral e da saúde pública. Sobre o consumidor incidiria o discurso médico consolidado pela perspectiva sanitarista em voga na década de cinqüenta, que difunde o estereótipo da dependência – ‘o problema da droga se apresentava [na década de sessenta] como uma luta entre o bem e o mal, continuando com o estereótipo moral, com o qual a droga [re]adquire perfis de ‘demônio’, mas sua tipologia se tornaria mais difusa e aterradora, criando-se o pânico devido aos ‘vampiros’ que estavam atacando tantos ‘filhos de boa família’”.[8]

Este discurso se enquadraria perfeitamente ao caso do ecstasy, não fosse por um relevante detalhe que será examinado a seguir: no que tange a esta substância, o perfil sócio-econômico de seus usuários neutraliza significativamente o estigma (GOFFMAN, 1988) comumente associado aos usuários de drogas em geral.

  1. O ecstasy é uma droga como as demais? O impacto do perfil do usuário e do local de consumo na produção do imaginário coletivo sobre a droga

Em nosso país, a influência desta política elaborada pelos Estados Unidos de “combate às drogas” baseada principalmente na repressão ao tráfico (que em alguns países justifica a ocupação de territórios pelo seu exército) foi adotada pelo estado e pautou as ações do mesmo no que tange a esta questão. Ao longo do último século, o Brasil intercalou períodos de estagnação econômica com períodos de crescimento sem distribuição de renda. Um dos principais resultados destes modelos macroeconômicos empregados foi o crescimento desordenado dos grandes centros urbanos. E são justamente as periferias destes centros urbanos que acabam se tornando o palco para a ação repressiva do estado no combate ao tráfico. Desta forma, cada vez mais se consolida no país a imagem das favelas como sendo o espaço privilegiado para o tráfico, a delinqüência, a “marginalidade”, etc.

As imagens que comumente encontram-se nos diversos meios de comunicação (como as de um “menor” de idade, com uma tarja preta nos olhos e ostentando um fuzil na mão) não nos lembram que existe uma “hierarquia invisível” do tráfico (esquemas de lavagem do dinheiro do tráfico) que atua, por exemplo, no mercado imobiliário e no sistema financeiro. Ao se associar pobreza e marginalidade, a grande imprensa contribui para o reforço da visão intolerante e repressiva identificada anteriormente, assim como para o fortalecimento das imagens vinculadas ao “submundo das drogas”. Não é mais a Igreja que dita quem é satânico, mas a própria sociedade moderna que cria os seus próprios “demônios”.

O aspecto curioso deste contexto é que esta imagem negativa a que drogas como a maconha e a cocaína estão associadas não se remete com a mesma intensidade a drogas como o ecstasy. Um dos fatores que podem ajudar a explicar esta diferença constitui-se no caráter recente desta droga, principalmente no Brasil. No entanto, para além deste aspecto, argumenta-se aqui que a diferença no perfil sócio-econômico de usuários e traficantes desta droga, bem como do local onde ela é mais consumida (e ao qual está mais associada) são fatores fundamentais para se entender porque este rótulo da violência não se associa ao ecstasy.

  1. O perfil sócio-econômico do usuário de ecstasy em Porto Alegre

A presente seção visa a analisar como a justaposição entre um perfil sócio-econômico e um local de consumo em grande medida deslocados do espaço das favelas pode influenciar na construção de imagens associadas ao tráfico e consumo de ecstasy. Para tanto, foi feita uma análise de conteúdo, das matérias publicadas no jornal Zero Hora entre os anos de 1999 a 2006. O respectivo jornal foi escolhido por ser de grande abrangência no Estado do Rio Grande do Sul, onde circula, semanalmente, 172 mil exemplares. Além deste aspecto, este veículo disponibiliza para pesquisas o seu acervo aspecto que facilitou e agilizou a pesquisa.

A busca de dados ocorreu no mês de Junho/2006, no Centro de Documentação e Informação da Zero Hora, com sede na cidade de Porto Alegre/RS. O levantamento das matérias foi conduzido digitando-se a palavra “ecstasy”. Para o presente estudo, foram analisadas todas as matérias que discorriam sobre a droga, publicadas no período de janeiro de 1999 a junho de 2006. Posteriormente foi realizada uma nova triagem, na qual foram selecionadas apenas as matérias que tratavam de forma clara e efetiva sobre o ecstasy. Das 310 matérias, 173 mostraram-se, aparentemente, sem relevância para a pesquisa, pois se referiam a títulos de livros ou sinopses de filmes, programação de cinema e tv, nome de peças de teatro, músicas, nome de bebida energética, ou seja, casos em que o termo “ecstasy” foi citado associado a eventos culturais ou produtos legalmente consumidos pelo público jovem de classe média e alta (energéticos). Justamente por remeter a aspectos descolados de uma imagem de violência, estas matérias (que representam mais da metade da nossa amostra) indicam uma tendência a descolar este vocábulo de imagens associadas à vocábulos como “maconha”, por exemplo.

As 137 matérias que tratam especificamente da droga foram classificadas em dois grupos: temática de cunho preventivo e de cunho repressivo. Uma vez organizadas, as matérias selecionadas foram submetidas a uma análise de conteúdo detalhada, visando obter informações acerca da contextualização das notícias: características dos indivíduos envolvidos, como a faixa etária, sexo e escolaridade; relação da droga com festas eletrônicas e as intervenções mencionadas (repressão ou prevenção).

Foram contabilizadas 137 matérias que estavam de acordo com as especificações estabelecidas para o presente estudo. Destas, 85 foram classificadas como de cunho preponderantemente repressivo e as outras 52, de cunho preventivo. Deste total, 33 apresentaram personagens caracterizados, em geral, como jovens e adultos, com idades variadas entre 14 e 43 anos, predominando as idades entre 22 e 28 anos. Também foi observado que, quando definida a escolaridade, há um claro predomínio de indivíduos cursando o terceiro grau ou com este já concluído.

Os dados em relação às festas rave foram poucos significativos, em termos de proporção da quantidade de matérias para o número de aparições das festas rave e esperávamos mais associações entre a droga e as festas, já que o ecstasy surgiu e está significativamente associado a espaços como as festas de musica eletrônica. Cabe se perguntar sobre este ponto: será que o consumo de ecstasy ainda é tão pequeno que a apreensão da droga ainda é residual? Será que as apreensões ocorrem, mas são muito pouco divulgadas nos veículos de comunicação? Ou ainda, será que o consumo não é tão pequeno assim, mas não há uma atividade repressiva por parte das autoridades competentes do mesmo modo que ocorre com outras drogas como a maconha e a cocaína?

Dentre todos os anos pesquisados, o ano em que o ecstasy teve mais destaque foi o de 2002, no qual constatamos 89 matérias. Tal destaque é devido ao episódio da primeira morte noticiada no estado pelo consumo da droga, curiosamente em uma festa rave. Uma morte que tem como causa a aproximação com o “submundo das drogas” não é novidade. O que há de novo neste caso é o fato do perfil desta adolescente (universitária e de classe média) não ser o mesmo usualmente associado a este “submundo”. Este fato ajuda a explicar o número significativo de matérias que associam o ecstasy à morte. É curioso que o impacto causado por eventos como este na mídia gaúcha foi praticamente o mesmo que ocorreu na Austrália, onde o universo rave, que era até certo momento tratado pela mídia local como uma nova expressão da juventude (de classe média – “os nossos jovens”) passa a ser descrita como um local perigoso onde as “nossas crianças” poderiam estar sendo expostas à “más influências” (GIBSON e PAGAN, 2006).

Em relação à repressão, foram encontradas 85 matérias sendo que 55 tratam de apreensões de ecstasy e prisão dos indivíduos pegos com a droga. Identificou-se que não houve qualquer tipo de diferenciação entre usuário e traficante ou uso e tráfico. Em segundo lugar, estão as matérias referentes a apreensões de ecstasy em festas rave, em número bem menor, seis matérias apenas. Dessa forma, a repressão aparece, principalmente, na apreensão da droga e a conseqüente prisão do individuo envolvido, ou seja, repressão diretamente ligada à punição, em uma tentativa de mostrar a presença policial e sua tarefa disciplinadora.

  1. O papel do ecstasy no “universo rave”

Qualquer estudo ou pesquisa que tenha como foco principal de análise o tema do tráfico e consumo de substâncias como o ecstasy deve considerar o exame dos contextos sócio-econômico e cultural como um passo fundamental para uma maior compreensão deste objeto. O exame deste contexto mais amplo confere ao pesquisador a possibilidade de identificar o papel que esta substância possui no contexto das festas rave, como por exemplo, o significado que os seus usuários lhe atribuem e o seu caráter potencializador de uma interconexão entre pessoas, música e natureza. No que tange ao ecstasy, a relevância da análise deste contexto mais amplo em que a substância se insere é fundamental dado o caráter recente tanto da utilização desta substância quanto do surgimento da “subcultura rave”. Estudos como os de GUIBSON e PAGAN (2006) e ROME (2001) identificam que as primeiras festas rave que ocorrem na Europa e Estados Unidos datam do início da década de oitenta. Identifica-se aqui que não só o consumo de ecstasy é recente, como a própria festa rave constitui-se em símbolo da emergência de uma nova subcultura.

Se nos Estados Unidos, Austrália e em diversos países europeus este fenômeno não possui mais que três décadas, no Brasil o desenvolvimento da cena eletrônica (e das festas rave) é ainda mais incipiente. Em nosso país, pode-se afirmar que tal processo está em marcha há não mais que uma década e meia. Dito com outras palavras: a significativa interconexão entre ecstasy e o universo rave, juntamente com o escasso número de pesquisas e análises centradas neste universo no Brasil tornam o exame do universo rave imprescindível. Deve-se destacar que no que tange às áreas de sociologia, antropologia e psicologia, pode-se identificar um acúmulo significativo de produção bibliográfica em nível internacional. Contudo, salienta-se aqui a inconveniência de se transpor automaticamente para o contexto brasileiro as conclusões e os achados de estudos que tomam o contexto europeu ou norte-americano como objeto privilegiado de análise. Em um contexto em que o objeto de estudo é recente do ponto de vista temporal e em que são escassas as referências locais de produção de conhecimento acerca de tal fenômeno, ganham importância estudos como os de STELLA (2000 e 2005) que analisam o perfil do usuário de ecstasy (principalmente em São Paulo) e FONTANARI (2003), que analisa a cena eletrônica e o universo rave no estado do Rio Grande do Sul.

Estas análises constituir-se-ão nas principais referências utilizadas no presente esforço de contextualizar da forma mais fiel possível os ritos e significados atribuídos às festas rave e ao ecstasy. Uma das principais questões examinadas por FONTANARI (2003) na cena eletrônica em Porto Alegre constitui-se na distinção entre o que podemos denominar como os estabelecidos e os outsiders (ELIAS, 2000). Este ponto é relevante dado que se deve ter sempre presente o fato das festas rave fazerem parte de um universo mais amplo denominado cena eletrônica. Entre as festas rave, que são eventos que ocorrem de tempos em tempos e envolvem um número significativo de pessoas (mil, duas mil, quatro mil pessoas…), o público que efetivamente se identifica com a música eletrônica, bem como com os seus estilos de vida, freqüenta bares e clubes que funcionam regularmente para manter contato com a música eletrônica e com outros adeptos desta subcultura (estabelecidos). Estes clubes caracterizam-se por reunir um número de pessoas bem mais restrito que o identificado nas festas rave.

Desta forma, no interior desta subcultura (cena eletrônica) os estabelecidos representam um grupo restrito de pessoas fortemente vinculadas não só à música eletrônica (detêm maior conhecimento de suas variações e possui preferências em relação as mesmas), mas também ao seu estilo de vida (roupas, acessórios, etc.) e a sua  “ideologia”. Por outro lado, os outsiders representam o grande público, as pessoas (“mauricinhos” e “patricinhas”, por exemplo) que não possuem conhecimento apurado acerca da música, não compartilham a “ideologia” eletrônica e que não freqüentam os clubes, mas que se fazem presente nas raves porque “é moda”. Na citação a seguir fica clara a distinção entre estes dois grupos, bem como um sentimento de desconforto por parte dos estabelecidos com uma “abertura demasiada” que incorpora pessoas que não compartilhariam os mesmos gostos, estilos, etc.

“A música eletrônica em Porto Alegre, nessa época anterior a 1998, tinha um caráter “underground”, sendo apreciada por um público pequeno, porém fiel, que se reunia para se divertir ao som de músicas que não eram sucessos comerciais na rádio. A exigência quanto à música não se dava em termos de sensibilidade musical, mas quanto a uma música que fosse o símbolo de uma juventude culturalmente diferenciada do público “massificado”. Os ambientes onde era reproduzida eram freqüentados tanto pelo público gay quanto pelo heterossexual. A dimensão “gênero” é representada como bastante presente nesta fase da cena. […] A entrada em cena da produtora Reexistência se dá já com uma proposta “conceitual” diferenciada em relação ao caráter da música eletrônica da época. Muitas das críticas dirigidas a ela remetem à “abertura” da música eletrônica que promovera, para um público mais elitizado economicamente. Sua política teria contribuído para que esta música perdesse o seu caráter exclusivamente underground e passasse a atingir um público para quem a música eletrônica adquiria um outro sentido. Ao invés de elemento de diferenciação cultural apropriada por um público de “classe média ‘esclarecida’”, ou melhor, “cult”, passou a ser apropriada como um objeto do “mainstream”, da moda, por um outro público, que apesar de compartilhar de um gosto musical, não se identificava com o ambiente underground”.[9]

Ao se comparar o perfil dos usuários de ecstasy identificado nas reportagens do jornal Zero Hora com o perfil dos integrantes da cena em PoA analisados por FONTANARI (2003), identifica-se uma sobreposição digna de nota. Em ambos os casos o público é identificado como formado por jovens ou “jovens adultos” (17 – 30 anos), de classe média e média alta, universitários e profissionais bem inseridos nos mercados de trabalho e consumo. Tal perfil é praticamente o mesmo identificado em outras capitais do país, como São Paulo e Rio de Janeiro (ALMEIDA, 2000 e 2005) e no exterior (GIBSON e PAGAN, 2006).

Que o perfil identificado em todas as análises examinadas seja praticamente o mesmo não causa surpresas. O curioso aqui é que Zero Hora e FONTANARI (2003) identificam o mesmo perfil, mas a partir de universos diferenciados. O veículo de comunicação trata especificamente dos usuários de ecstasy enquanto que o autor tem como foco privilegiado de análise não somente os usuários de ecstasy, mas todos os integrantes da cena da capital gaúcha. Relacionando-se esta questão com a distinção anteriormente explicitada, pode-se perguntar: quem são os usuários mais freqüentes de ecstasy? Os usuários de ecstasy de Porto Alegre se encontram preponderantemente entre os estabelecidos, ou entre os outsiders (“mauricinhos” e “patricinhas” que freqüentam as raves)?

Ao examinar as diferentes substâncias psicoativas no universo rave em Porto Alegre, o autor se aproxima de uma resposta a estas perguntas ao afirmar que o ecstasy, por custar em torno de R$25,00 a R$ 50,00, é consumido pelo público de maior poder aquisitivo, enquanto outros jovens optam pela utilização de substâncias “alternativas” e mais baratas, como inalantes e anfetaminas. Com base neste aspecto, pode-se afirmar que o consumidor de ecstasy é preponderantemente o jovem mais abastado e que freqüenta apenas as raves (“mauricinhos” e “patys”)? Ou o consumidor de ecstasy é principalmente o jovem abastado, mas estabelecido na cena eletrônica de PoA? Somente a partir de análises mais detalhadas será possível afirmar com maior precisão se o consumo de ecstasy está associado a um ou outro perfil (ou ainda a ambos).

Se até aqui não é possível identificar se o consumo de ecstasy é maior entre os estabelecidos ou entre os outsiders, é possível identificar qual o papel atribuído a esta substância no interior dos ritos que envolvem uma rave. Estas festas se caracterizam por possuírem uma longa duração, mas não de forma homogênea. Pode-se, grosso modo, identificar pelo menos dois momentos distintos: um primeiro momento em que tanto estabelecidos quanto outsiders dançam, encontram seus conhecidos, conversam, circulam pelos diferentes ambientes da festa, bebem, “caçam”, etc. O segundo momento da festa começa de madrugada, quando boa parte dos outsiders já foi embora (FONTANARI, 2003). Neste momento a grande maioria das pessoas se concentra na pista de dança. Ë neste momento também que os melhores DJ’s contratados fazem as suas apresentações, isto é, “conduzem a nave”. E é ao longo desta fase que se torna mais evidente o estado de vibe, fundamental para se entender o papel do ecstasy (a “droga da cultura” ou “droga do amor”) e de outras substâncias psicoativas na festa. Em seu estudo, FONTANARI (2003) cita diversos trechos de entrevistas em que a definição de vibe é claramente explicitada.

“Vibe é a abreviação de vibração, seria tu conseguir pegar no éter que tá causado, pegar no ar as ondas assim, de vibração da música, do ambiente, e conseguir entrar em sintonia, isso é a vibe, se a vibe ta boa é porque tem tipo, um inconsciente coletivo que tá conseguindo transmitir uma mensagem, mesmo que agente não consiga exprimir em palavras […] muita energia, concentração, tem que ter harmonia […] As pessoas têm que ter tudo isso, elas têm que tá em harmonia com a música, têm que tá em harmonia entre elas, têm que tá em harmonia consigo mesmas, tudo ao mesmo tempo, têm que tá com energia, têm que tá com um alto nível de energia psíquica, basicamente têm que tá pilhado. (Francisco)”.[10]

Harmonia consigo mesmo, com os outros, com o ambiente, com a música e com a natureza. Energia, liberdade, transcendência, comunicação e relação extra-sensoriais de cada um com o mundo. Quando este estado alcança determinado grau, a própria distinção entre o indivíduo e o seu entorno fica imprecisa e cada vez mais as pessoas se vêem não mais como distintas do todo, mas como fazendo parte deste todo. Outro entrevistado afirma que:

“[…] Quanto maior o número de pessoas que estiverem em transe, … não interessa se tá no estilo ou não, … não interessa se o cara é um punk ou se o cara é um clubber, tá ligado, não interessa se o cara é um mauricinho ou se o cara é um maloquero da vila, interessa o nível de transe, tá ligado, e esse nível de transe da galera não é um negócio que tu vê, tu sente, tá ligado, então quanto maior o número de pessoas que se deixar largar assim, pelo pensamento, e ficar só no som, maior vai ser a energia da festa […] quanto mais livre tu tiver com o esquema com a mente, mais solto naquilo ali, mais vibração tu vai emanar, tá ligado, e mais tu vai contagiar as pessoas ao teu redor, na festa assim, então é uma cadeia … (Juliano)”.[11]

Para além do fato das substâncias psicoativas aumentarem a resistência corporal, ajudando assim as pessoas a agüentar a “longa jornada” da festa, estas substâncias teriam o papel de contribuir para que os “membros da nave” atinjam o estado de vibe. E em função dos seus efeitos, o ecstasy constitui-se em uma das substâncias mais associadas a este rito presente nas festas rave. De acordo com os freqüentadores de festas rave, o consumo da “bala” não é indispensável para se atingir o estado de vibe, mas contribui muito tanto para que se atinja este estado, quanto para que a sua durabilidade e intensidade sejam amplificadas.

  1. Considerações finais

O uso de substâncias psicoativas é uma prática comum e disseminada nas mais diferentes épocas, sociedades e culturas. Desde os primórdios da história existem registros que comprovam a utilização de diferentes substâncias (bebidas, plantas, extratos, etc) que têm como característica comum a alteração da percepção humana. Um dos primeiros registros escritos da dormideira (planta de onde se extrai o ópio) data de três mil anos antes de Cristo e foi encontrado na região da Suméria. Além desta região, encontram-se também relatos da utilização do ópio na Babilônia e no Egito, onde se recomendava esta substância como calmante e analgésico (ESCOHOTADO, 1994).

Atualmente todas as substâncias que são chanceladas pelo Estado e pela medicina não são vistos como drogas ou são no máximo vistos como drogas lícitas, isto é, mesmo sendo percebida como uma droga, o fato de ser lícita descola desta substância uma carga negativa que costuma acompanhar as chamadas drogas ilícitas ou, simplesmente, as “drogas”. Esta distinção que é para nós “clara” e “natural” não faria sentido para um habitante do império romano dado que para ele não haveria diferença entre as mais diversas substâncias. A diferença seria dada não pela substância em si, mas pelo uso que dela era feito (“a diferença entre o remédio e o veneno está na dose”).

Embora algumas questões ainda estejam em aberto (questões com as quais estamos trabalhando atualmente em nossa pesquisa, como a de saber se os consumidores de ecstasy se encontram disseminados tanto entre estabelecidos e outsiders da cena eletrônica, ou em um grupo em particular), até o presente momento, a pesquisa pôde identificar que para além da origem sócio-econômica, o local em que o ecstasy é consumido e o fato desta substância estar associada a uma simbologia ligada à não-violência, atuam como fatores fundamentais para que se possa compreender como a produção de imagens negativas em relação às drogas em geral (ideologia do “combate às drogas” – EUA – e “satanização” das drogas) perdem parte da sua eficácia quando é o ecstasy e seus consumidores que estão em questão.

  1. Referências bibliográficas

ALMEIDA, Stella P. Primeiro perfil do usuário de “êxtase” (MDMA) em São Paulo. Dissertação de mestrado – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo: São Paulo, 2000. Disponível em http://www.teses.usp.br/ Acessado em 10/07/2006.

____________. Sobre o uso de Ecstasy: uma pesquisa com vistas a formulação de intervenção preventiva. Tese de doutorado – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo: São Paulo, 2005. Disponível em http://www.teses.usp.br/ Acessado em 10/07/2006.

CARVALHO, Salo de. A política criminal de drogas no Brasil (estudo criminológico e dogmático). Rio de Janeiro: Editora Lúmen Júris, 2006.

ELIAS, Norbert. Os estabelecidos e os Outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

ESCOHOTADO, Antonio. Las Drogas: de los orígenes a la prohibición. Madrid: Alianza Editorial, 1994.

FONTANARI, Ivan Paolo de Paris. Rave à margem do Guaíba: música e identidade jovem na cena eletrônica de Porto Alegre. Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Porto Alegre, 2003. Disponível em www. Acessado em 05/10/2006.

GIBSON, Chris and PAGAN, Rebecca. Rave culture in Sydney, Australia: mapping youth spaces in media discourse. University of Sydney, NSW, 2006. Disponível em:http://www.cia.com.au/peril/youth/chrispagan2.pdf. Acessado em 23/03/2007.

GOFFMAN, Erving. Estigma. Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Quarta edição. Rio de Janeira: LTC Editora, 1988.

ROME, Ellen S. It`s a rave new world: Rave culture and illicit drug use in the young. In: Cleveland clinic journal of medicine. Volume 68, number 6. June, 2001.

 

[1] Com a decadência do império romano, o oeste europeu passa a experimentar uma fase de descentralização político-administrativa que durará vários séculos. Ao longo do período feudal, a única instituição que logra manter o controle sobre vastas extensões territoriais constitui-se na Igreja católica. Ao consolidar o seu poder, a Igreja católica passa a ser a origem e uma das principais causas de uma profunda redefinição da vida, do homem, do universo e do papel do homem no mundo.

Nestas novas concepções de mundo e de homem não havia mais lugar para a valorização da ebriedade. O homem não é mais senhor de seu destino, que está agora exclusivamente nas mãos de Deus. Destarte, todo o sofrimento e dor sofridos não podem mais ser remediados dado que os mesmos são manifestações da vontade divina e voltar-se contra tal vontade constitui-se em um dos piores pecados a ser cometido por um fiel. O sofrimento e a dor, antes frequentemente remediados através de uma quantidade abundante de substâncias psicoativas, passam a ser não só irremediáveis como também valorados positivamente. A dor da carne passa a representar a salvação do espírito e qualquer tentativa de provocar prazer a partir do uso de substâncias psicoativas é vista como algo condenável. O homem não só deixa de ser senhor do seu destino, como perde autoridade sobre o seu próprio corpo.

Se o bem-estar físico e o prazer carnal são condenados, nada mais natural que a condenação tanto das substâncias que provocam artificialmente estas sensações, quanto das pessoas que dominam o conhecimento da sua manipulação e preparo. É neste contexto que a Igreja católica dará início, segundo a sua opinião, a uma jornada épica: a caça às bruxas e às “plantas diabólicas”. O uso, tanto religioso quanto lúdico, das drogas (à exceção do álcool) passa a ser proibido, condenado e castigado com tortura e pena de morte.

[2] Tanto para os gregos como para os romanos, as drogas estariam destituídas de qualquer poder extraordinário ou sobrenatural. A relação destas sociedades com as drogas era pautada não apenas pelo seu papel religioso ou cerimonial, mas também pelo caráter terapêutico das mesmas. Com relação ao interesse do estado no comércio destas substâncias (uma discussão tão contemporânea) é possível identificar que já no império romano a utilização de substâncias como o ópio era não só permitida como regulada pelo Estado que, no ano de 301 e através de um édito, fixa o preço desta droga. Pode-se citar também o fato de que neste mesmo período (no ano de 312, por exemplo) o volume de negócios movimentado por esta substância representa 15% da arrecadação de impostos na cidade de Roma.

Este dado constitui-se em forte indicador do quanto era massificado o consumo de ópio entre os romanos. No entanto, para um observador contemporâneo, chama a atenção a constatação de que mesmo em larga escala, este consumo não fez com que o ópio fosse visto como um problema social. Os usuários regulares não eram vistos nem como casos clínicos (doença – dependência) nem eram marginalizados socialmente. Entre as drogas mais conhecidas atualmente e que eram consumidas em larga escala no império romano, o vinho era proibido para as mulheres. No entanto, mesmo em uma cultura inclinada a punir severamente qualquer tipo de transgressão às suas normas, o Estado não intervinha nesta questão dado que este era um problema tido como moral, isto é, de competência do chefe da família e não da esfera pública.

[3] ESCOHOTADO, Antonio. Las Drogas: de los orígenes a la prohibición. Madrid: Alianza Editorial, 1994, p 67.

[4] ESCOHOTADO, Antonio. Las Drogas: de los orígenes a la prohibición. Madrid: Alianza Editorial, 1994, p 54.

[5] Então vista como “alimento para os nervos” e “forma inofensiva para curar a tristeza”.

[6] A descoberta do princípio ativo da heroína constitui-se em um dos principais fatores que explicam o crescimento vertiginoso de uma até então pequena fábrica de corantes de propriedade de F. Bayer.

[7] ESCOHOTADO, Antonio. Las Drogas: de los orígenes a la prohibición. Madrid: Alianza Editorial, 1994, p 88.

[8] CARVALHO, Salo de. A política criminal de drogas no Brasil (estudo criminológico e dogmático). Rio de Janeiro: Editora Lúmen Júris, 2006, p 10.

[9] FONTANARI, Ivan Paolo de Paris. Rave à margem do Guaíba: música e identidade jovem na cena eletrônica de Porto Alegre. Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Porto Alegre, 2003, p 71-72.

[10] FONTANARI, Ivan Paolo de Paris. Rave à margem do Guaíba: música e identidade jovem na cena eletrônica de Porto Alegre. Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Porto Alegre, 2003, p 131.

[11] FONTANARI, Ivan Paolo de Paris. Rave à margem do Guaíba: música e identidade jovem na cena eletrônica de Porto Alegre. Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Porto Alegre, 2003, p 133.

 

 

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