A Contribuição do Materialismo Histórico para a articulação entre Alienação Humana e Degradação Ambiental

REVISTA SOCIOLOGIA JURÍDICA – ISSN: 1809-2721

Número 07 – Julho/Dezembro 2008

A Contribuição do Materialismo Histórico para a articulação entre Alienação Humana e Degradação Ambiental

Elizabete David Novaes – Doutora em Sociologia pela FCL- UNESP/Araraquara  e Docente das Faculdades COC- Ribeirão Preto.

E-mail: eldavid@terra.com.br

José Guilherme Perroni Schiavone – Bacharel em Direito pelas Faculdades COC; Especializando em Direito Ambiental e Gestão Estratégica da Sustentabilidade pela COGEAE – PUC/SP;

E-mail: guilhermeperroni@hotmail.com

Resumo: A partir das contribuições do materialismo histórico marxista o presente trabalho busca demonstrar que a degradação dos recursos naturais (natureza), bem como a alienação do homem a partir dos tempos modernos, originam-se do somatório do modo de produção capitalista com a ideologia antropocentrista desenvolvida ao longo dos séculos. Tais reflexões emergem a partir especialmente da obra de John Bellamy Foster acerca da “ecologia de Marx”. Desse modo, visa apontar que a concentração da população nos meios urbanos faz com que haja obstáculos na relação metabólica entre o homem e o meio natural, o que gera a degradação ambiental, por não haver retorno à própria natureza dos elementos naturais extraídos pelo próprio homem.

Sumário: 1. Introdução; 2. Do Antropocentrismo ao Materialismo; 3. Fundamentos Epicuristas do Materialismo de Marx; 4. Alienação do Trabalho no Capitalismo Urbano-Industrial; 5. A Perspectiva Relacional entre Pobreza e Natureza: Malthusianismo X Materialismo; 6. O Evolucionismo de Darwin e o Materialismo Histórico de Marx; 7. Da Concepção Materialista da Natureza ao Materialismo-Histórico; 8. Conclusão; 9. Bibliografia.

Palavras-chave:  Materialismo-histórico – Degradação da natureza – Alienação – Ecologia.

  1. Introdução

A percepção histórico-crítica da realidade social assenta-se nos pressupostos materialistas voltados para a compreensão da relação homem-natureza mediada pelo trabalho. Quando Karl Marx relatou a alienação do trabalho humano, sem dúvida nenhuma estava referindo-se à alienação do homem com relação à natureza. Para Marx, a questão ecológica se reduz a uma questão de valores, ou seja, a relação entre a natureza e o homem, a qual leva segundo John Foster, a denominação de “relações metabólicas” (FOSTER, 2005), impõe ao homem conceitos restritos sobre os valores ecológicos, os quais se subdividem em conceitos materialista e idealista.

No conceito idealista, existe uma ênfase relativa aos valores, fazendo com que os fatos da história material e as lutas travadas com o passar do tempo desapareçam. Nota-se com isso, por oposição, que o verdadeiro e significativo avanço do pensamento ecológico ocorreu quando se atribuiu a este a importância de se inter-relacionar a condição da história com a condição materialista da natureza.

Justifica-se, a título de introdução, que o presente estudo, na tentativa de refletir acerca dos problemas ambientais e apontar a causa da alienação humana na relação com a natureza, teve como premissa as contribuições teóricas de Karl Marx, trabalhadas a partir da leitura de John Bellamy Foster, Samuel Murgel Branco, e Marilena Chauí.

  1. Do Antropocentrismo ao Materialismo

O afastamento da percepção da terra como centro do mundo e da vida foi proposto por Nicolau Copérnico em 1543 d.c, através da afirmação de que a terra gira em torno do sol, deduzindo-se conseqüentemente que o universo como um todo também seguia esse modelo, o que reduzia o homem a uma “partícula de poeira” de um grande espaço infinito que até então tinha posição privilegiada no mundo (percebido até então estando abaixo de Deus e acima da natureza) (BRANCO, 1999).

Como conseqüência, esta teoria sacudiu todas as crenças da existência do mundo, contrariando a visão escolástica que implicava na criação do mundo como fruto de um poder divino. Não obstante, a filosofia passa a se posicionar em sentido contrário acerca da interpretação da criação do Universo, afirmando que Deus não criou o mundo, tal como podemos perceber nas palavras de Marilena Chauí: “… o Deus não cria o mundo, não gera o mundo, nem fabrica o mundo, pois não é causa eficiente e sim causa final que age à distância” (CHAUI, 2002, p. 404).

Em tempos atuais, ao se considerar a teologia, esta parece ter em algum momento se desvinculado da escolástica, pendendo para o que foi colocado por Chauí; e, de certo modo, ter mantido, em concordância com Aristóteles, somente a existência da figura divina e seu finalismo. Este ponto mostra uma evolução do pensamento original, evidenciando que a metamorfose do pensamento foi fundamental para sustentar a própria teologia; do contrário, esta sucumbiria à corrente materialista Darwinista, considerando que Deus seria fruto da mente humana, e que, por sua vez, existiria em decorrência da evolução natural.

Assim, por conseqüência, o trabalho de Copérnico resultou na imagem da natureza vista sob uma visão mecanicista, segundo a qual, a soma de fatores naturais era posta como uma grande máquina, cada elemento visto como uma peça, atuando em conjunto e reforçando a concepção mecanicista, que mais tarde seria contrariada por Marx.

Contudo, no final do século XVII, a opinião dominante acerca da criação do mundo, e assim também do ser humano como elemento nele contido, é baseada na vontade e determinação do poder divino. Esta corrente se estende até o final do século XVIII e início do século XIX, quando passou a ser questionada e naturalmente começa a declinar, sem dúvida alguma, impulsionada pelo trabalho de Charles Darwin em sua obra “Sobre a Origem das Espécies por meio da seleção natural” (FOSTER, 2005).

Importante dizer que a teologia tentou influenciar a busca de argumentos para contrariar a concepção de “mundo natural”, significando uma tentativa infrutífera, uma vez que a concepção da evolução natural teve grande contribuição do trabalho de filósofos e especialistas das mais diversas áreas ligadas à natureza, que assim impulsionaram ainda mais essa nova corrente, resultando no questionamento da origem da existência humana que se desenvolveu ao longo da história da humanidade.

Outrossim, importante dizer que atualmente a religião e a ciência ainda se confrontam, o que pode ser considerado algo natural, uma vez que: “A resistência da teologia natural advém do fato de ela ter crescido paralelamente à ciência, opondo-se, ao mesmo tempo, ao materialismo” (FOSTER, 2005, p. 45).

Tamanha foi a resistência da Igreja ao materialismo (visto como ateísmo, pois à época, o materialismo era mecanicamente associado ao ateísmo), ou seja, ao seus seguidores ou ideólogos, que em determinados momentos houve práticas de violência, como ocorreu com Giordano Bruno, antecessor de Copérnico, que por demonstrar uma posição antiteológica foi queimado na fogueira. Esse materialismo ao qual a Igreja se opunha, referia-se basicamente a relação do homem com o meio natural, segundo a qual a origem do mundo advém da natureza e da matéria e, sendo assim, o homem é fruto desta natureza, assim como a religião é decorrente da mente humana. Foster, nesse sentido, aponta ”… o materialismo afirma que as origens e o desenvolvimento de tudo que existe depende da natureza e da “matéria”, ou seja, trata-se de um nível de realidade física que independe do pensamento e é anterior a ele” (FOSTER, 2005, p. 14). A matéria à qual o autor se refere diz respeito a parte física da natureza, estando englobada no conceito de natureza e, ao mesmo tempo, sustentando a base natural de energia, ou seja, é a energia que mantém a vida natural e que se renova naturalmente, desde que se mantenha um meio ambiente equilibrado.

  1. Fundamentos Epicuristas do Materialismo de Marx

Uma das fontes do materialismo desenvolvido por Marx teve início na obra de Epicuro, tendo como principal adversária a teologia que, contrariando a corrente materialista, colocava a criação do universo como “presente de Deus dado aos homens” (FOSTER, 2005). O embate das duas correntes deu-se especialmente em razão do materialismo se contrapor ao antropocentrismo, que era justamente o centro da teologia. Essa contraposição foi fundada no afastamento da idéia da terra ser tomada até então como centro do universo, e também, com a perspectiva evolucionista dos seres humanos (FOSTER, 2005). Em meio a um contexto de defesa da teoria de Darwin, contrariando as idéias da época, a filosofia de Epicuro é resgatada pelos seus seguidores. Epicuro, filósofo grego pré-socrático, baseou seu trabalho nas obras dos atomistas Leucipo e Demócrito. Para estes, a realidade era formada por um número infinito de átomos que estavam contidos em um vácuo, e que detinham a essência do movimento e, através desse movimento, combinavam-se ou não, formando assim os objetos. Como se pode observar, o materialismo de Epicuro, baseado na criação humana e também na realidade, como frutos de combinações de átomos, contrariava a posição medieval da Igreja, excluindo assim o poder divino da concepção da natureza, sendo que essa filosofia da natureza representava uma visão ecológica, segundo a qual a vida nascia da terra.

No século XVIII, as obras baseadas em Epicuro, pelos assim chamados epicuristas, continuaram a desempenhar um grande papel para o fortalecimento do materialismo, em detrimento da teologia cristã fundada em doutrinas aristotélicas. Dentre os precursores do materialismo, o mais importante foi Karl Marx, afirmando que o poder divino que sustentava o mundo, sempre esteve associado ao terror, pois nada poderia ser mais perigoso do que fazer o homem pensar que há um ser abstrato superior a ele e à natureza, não podendo ser contestado, e para quem deveriam ser feitos sacrifícios em nome da felicidade (FOSTER, 2005).

Ademais, para Marx, a base do materialismo epicurista encontrava-se na sua concepção de mortalidade, ou seja, no que Epicuro chamou de “mors immortalis” (morte imortal), encontrava-se a chave para se chegar a uma ética materialista, por meio da superação do medo da morte. Reforçando tal idéia, Foster, citando Lucrécio, afirma: “Alguém que deixou de existir não pode sofrer, nem de modo nenhum diferir de alguém que jamais nasceu, uma vez que esta vida mortal foi usurpada pela morte, a imortal” (LUCRÉCIO, apud FOSTER, 2005, p. 87)

Contudo, o materialismo epicurista não se prende somente aos átomos ou ao ateísmo, vai muito além, conforme se pode observar na afirmação de Foster:

“Na verdade, foi precisamente pelo fato de o materialismo epicurista ser mais que um mero atomismo – mais até que a rejeição dos deuses como forças do mundo material -, além de representar, de uma perspectiva mais positiva, o desenvolvimento consciente de um naturalismo e humanismo genuíno na vida da Antiguidade, que o seu impacto no Iluminismo foi tão grande.” (FOSTER, 2005, p. 92)

Voltando a Marx, percebe-se que em sua discussão acerca da alienação do trabalho colocava este conceito como inseparável da alienação do homem com relação à natureza, uma vez que para ele a natureza entrava na vida dos seres humanos através da produção. Assim, Marx atribuiu à produção decorrente do trabalho a expressão “corpo inorgânico”, como se fosse um braço do corpo humano, sendo através dessa produção que se permitiria ao homem modificar a natureza, através de suas invenções. Assim, o homem estaria produzindo a sua história na relação com a natureza, que se materializava nos objetos da subsistência humana (FOSTER, 2005).

  1. Alienação do Trabalho no Capitalismo Urbano-Industrial

Paralelamente a esse conceito, emerge o conceito de alienação do trabalho, o qual “Aliena o homem do seu próprio corpo, da natureza tal como ela existe fora dele, da sua essência espiritual, da sua essência humana”. (MARX, apud FOSTER, 2005, p. 108). Em verdade, o homem se tornou alienado, em primeiro lugar, devido ao sistema de cercamento das propriedades, que passaram a se concentrar nas mãos de poucas pessoas fazendo com que o produtor não tivesse mais acesso a terra e à natureza, impedindo-o de criar sua história e, por fim, alienando-o.

Assim, com a evolução do regime capitalista e o fortalecimento do sistema urbano-industrial, no aspecto sócio-econômico agravou-se a realidade do século XIX, com temerosos índices de pobreza e miséria, uma vez que uma grande quantidade de pessoas se concentrando nos centros urbanos, resultou em uma grande quantidade de mão de obra, que passou a ser desvalorizada.

Apesar de Paul Singer considerar que essa realidade de grande quantidade de mão de obra humana em contraposição a uma pequena demanda no setor industrial ser algo normal no modo de produção capitalista, o mesmo autor concorda que a causa que deu início a essa situação de falta de emprego, é sem duvida, resultado da privação do proletariado dos recursos naturais, sendo a falta de terras fator primário para a baixa renda e desemprego (SINGER, 1976).

Por conseqüência, é válido salientar que o regime capitalista também afetou a qualidade de vida do trabalhador fabril, emergindo uma realidade que Marx denominou de “poluição universal”, referindo-se às péssimas condições de higiene e segurança em que o labor se desenvolvia. Desse modo,

“A alienação dos trabalhadores nas grandes cidades chegou assim ao ponto em que a luz, o ar, a limpeza, não eram mais parte da sua existência; em vez disso, eram a escuridão, o ar poluído e o esgoto in natura, não-tratado, que constituíram o seu ambiente natural.“ (FOSTER, 2005, p. 111).

Importante ressaltar que o problema centrava-se, na visão materialista, humanística e naturalística de Marx, na propriedade privada, que alienava o homem através da exclusão deste com relação à terra, o que segundo esta perspectiva, não ocorreria em um sistema econômico socialista, que efetivamente propusesse a justa e harmônica integração do homem com a natureza. Vale conceituar, como o faz Marilena Chauí que:

“A alienação é o fenômeno pelo qual os homens criam ou produzem alguma coisa, dão independência a essa criatura como se ela existisse por si mesma e em si mesma, deixam-se governar por ela como se ela tivesse poder em si e por si mesma, não se reconhecem na obra que criaram, fazendo-a um ser-outro, separado dos homens, superior a eles e com poder sobre eles.” (CHAUI, 1998, p. 170).

Para a autora, o problema com essa alienação do homem, no âmbito do trabalho, está na naturalização das idéias, dificultando assim a sua superação, uma vez que a real situação (alienação) em que se encontra o trabalhador, aparece como algo natural, e que deve permanecer nesse status. Assim nos ensina a autora:

“A naturalização é a maneira pela qual as idéias produzem alienação social, isto é, a sociedade surge como uma força natural e poderosa, que faz com que tudo seja necessariamente como é. Senhores por natureza, escravos por natureza, cidadãos por natureza, proletários por natureza, assalariados por natureza, etc.” (CHAUI, 1998, p. 417).

  1. A Perspectiva Relacional entre Pobreza e Natureza: Malthusianismo X Materialismo

Como discutido, a revolução filosófica do século XVII e XVIII derrubou a antiga visão escolástica (embasada em doutrinas aristotélicas). Com a queda desse tipo de teologia, outra começou a se formar, agora construída com pilares da natureza (teologia natural), e que buscava demonstrar a beleza divina presente na criação das coisas, sob a justificativa de que seria estúpido o homem pensar que esse mundo tão bonito fosse criado apenas por livre impulso dos átomos.

Dentro dessa nova corrente teológica que se instalava, fazia parte o reverendo Thomas Malthus, defendendo a visão da teologia natural, segundo a qual a população crescia em proporções (geométricas) maiores do que os alimentos (aritmética), como afirmou em sua obra “Ensaios sobre o princípio da população” de 1798, configurando-se como um fato que refletia a vontade divina. Sendo assim, para Malthus, a miséria era justificada pela vontade divina, pois, se Deus não deu condições para o homem se multiplicar então este não deveria fazê-lo, uma vez que estaria interferindo na vontade divina e por isso seria condenado à pobreza. Nesta ótica, nota-se claro o conceito da teologia natural, observando a presença de Deus colocada através da natureza.

Do mesmo modo, clara e perceptível é a justificativa capitalista utilizada nesta corrente teológica, fosse por interesse particular de Malthus ou até mesmo em defesa de interesses da Igreja, atribuindo a miséria da época não aos cercamentos das propriedades, à divisão e monopólio dessas terras, à “associação” dos produtores, mas sim, à vontade divina. Ou seja, elaborava-se a justificativa da condição sócio-econômica por meio da manifestação de um poder que assim determinou, sendo por isso, inquestionável.

Na visão de Karl Marx, atribuir toda a criação dos seres humanos e da natureza a Deus era, sem dúvida, perigoso, especialmente num contexto em que “… a população havia sido expulsa da terra pela sociedade burguesa, que preparou assim o caminho para uma exploração mais intensa tanto do lado natural quanto do lado humano da produção” (FOSTER, 2005, p. 154).

Por sua vez, contrariando Thomas Malthus, Marx e Engels apontam que a ciência se desenvolvia nas mesmas proporções que a população, o que aumentaria a produção de alimentos, negando a idéia de que a condição dos alimentos fosse determinada pela vontade divina. No mesmo sentido, apontaram que os alimentos não cresciam em proporções aritméticas, e não havia nenhuma limitação para seu crescimento, salvo a hipótese de limitação externa, que ocorreria por falta de espaço, portanto, sendo totalmente infundada a teoria Malthusiana, como também sua justificativa divina, como tratou Marx em sua obra “O capital”.

Portanto, a crítica de Marx e Engels não se fixou somente na antiga teologia cristã aristotélica, mas também avançou contra Malthus e outros representantes da teologia natural, fazendo com que emergisse a criação de um novo materialismo.

  1. O Evolucionismo de Darwin e o Materialismo Histórico de Marx

Darwin por sua vez, pautado numa postura materialista, tratou de se opor à teologia natural, através de sua obra “A Origem das Espécies”, publicada em 1859. A teologia natural afirma que determinados animais existem para um fim próprio, atribuindo uma causa final a determinado seguimento da natureza. Como exemplo, para a teologia natural, um gato é visto com a única função de caçar ratos, enquanto para Darwin, os gatos só existem porque caçam bem os ratos (FOSTER, 2005).

Do mesmo modo, Samuel Branco, explicando o princípio da causalidade que a teologia natural sustenta, estando fundamentada em Aristóteles, afirma:

“A própria criação está fatalmente ligada a uma finalidade. Esse finalismo na natureza é estranho para o pensamento oriental, ao passo que muito característico da nossa cultura desde os gregos. Aristóteles era partidário dessa idéia de um objetivo, mesmo que remoto para as coisas e fenômenos da natureza. Seu finalismo teológico era expresso na constante afirmação de que “a natureza nada faz em vão” – frases inúmeras vezes repetida por Aristóteles – como se a natureza fosse uma entidade antropomórfica e finalista.” (BRANCO, 1999, p.34).

Evidentemente, o trabalho de Darwin “caiu como uma bomba” sobre os pressupostos da teologia natural, extinguindo o argumento central (teoria das causas finais) que sustentava essa corrente. A teoria da evolução das espécies, em resumo, passou a discorrer sobre o desenvolvimento dos animais e plantas ao longo dos séculos, que de forma lenta foram se modificando, de modo que cada ser, proveniente de uma mesma fonte, fosse assumido características diferentes, dissociando-se da fauna ou flora original. Essa mudança de características garantiu às espécies se adaptarem em determinados locais e condições, favorecendo assim a sua sobrevivência.

Através do contato com as premissas darwinianas, Marx pôde reforçar sua teoria da história humana, evidenciando os elementos materialistas que acabam por levar o homem à alienação. Foster resgata das contribuições da antropologia que “Quando os primatas, que eram os ancestrais dos seres humanos, desceram das árvores, a postura ereta foi o primeiro elemento a se desenvolver (antes da evolução do cérebro humano) liberando as mãos para o fabrico dos artefatos.“ (FOSTER, 2005, p.281). Assim, foi através desses artefatos que o homem se desenvolveu intelectualmente, deixando de ser um primata e efetivamente tornando-se homem, fabricando os artefatos que melhor lhe garantissem a sobrevivência. Desse modo, o trabalho para criação dos artefatos foi o responsável pelo desenvolvimento humano.

Como concorda Foster (2005),  pode-se notar em Marx uma simpatia para com o trabalho de Darwin, visto como um complemento de sua obra, dando sustento ao materialismo, à medida que contrariava a teologia natural. Do mesmo modo, deu sustentação à idéia de que o mesmo artefato desenvolvido pelo homem (referindo-se às ferramentas), mais tarde foi o mesmo que o alienou.

  1. Da Concepção Materialista da Natureza ao Materialismo-Histórico

Foi nesse contexto filosófico e sócio-econômico do século XIX que Marx teve sua primeira noção de proletariado, quando passou a observar que o excedente da população, que Malthus colocava como sendo os pobres, na verdade, era a força-de-trabalho que movimentava o capitalismo (FOSTER, 2005).

Em atenção ao proletariado, o filósofo superou o materialismo existente e deu início a um novo tipo de materialismo, agora não mais focado na concepção materialista da natureza, mas sim no materialismo histórico. Marx agora não mais discutia a origem humana, mas com esse novo materialismo, revolucionava a vida humana, mostrando caminhos para a superação da alienação do homem para com as suas origens, que é a natureza.

Vale lembrar, que o materialismo histórico e a concepção materialista da natureza estão interligados, não devendo em qualquer circunstância ser separados. Nesse ponto, há a superação feita por Marx do antigo materialismo de Feurbach (que considerava a natureza e a história como dimensões distintas); uma vez que através do trabalho, os homens modificam a natureza e suas relações sociais (FOSTER, 2005).

A concepção materialista histórica foi proposta por Marx e Engels em “O Manifesto do Partido Comunista” de 1848, onde os autores atribuíam ao capitalismo a responsabilidade de ser o divisor da sociedade. Colocando de um lado o homem urbano e de outro o rural, cada um se submetia a um tipo de privação: o homem rural privado dos elementos intelectuais contidos nas cidades, enquanto o homem urbano ficava privado do seu sustento material e de uma sadia qualidade de vida, portanto excluído do ar, da limpeza, etc (FOSTER, 2005). Nesse sentido, Marx e Engels defendiam a extinção da divisão entre a cidade e o campo, pois esta divisão representaria a alienação do homem perante a natureza; impedindo uma distribuição eqüitativa da população. Vale ressaltar, que Marx não tratou diretamente no Manifesto Comunista da questão ecológica, salvo na hipótese em que esta interfere na vida do trabalhador (objeto especial de suas reflexões). Em outras obras, contudo, sua preocupação com o funcionamento do sistema capitalista e a redução das relações humanas à produção de mercadorias, fornece elementos e pressupostos para uma análise crítico-ecológica do modo de produção capitalista.

A associação mais clara entre a filosofia marxista e a questão ecológica, é notada em sua obra “O capital – critica da economia política”. Nesta obra, Marx apresentou o metabolismo das relações entre o homem e a natureza, (as ações do homem com a natureza e como essas interferem no meio ambiente), tratando em verdade, da falha que ocorre nesse metabolismo (falha metabólica) como uma decorrência da divisão entre a cidade e o campo (FOSTER, 2005). Ocorre que a concentração da população nos meios urbanos faz com que haja obstáculos na relação metabólica entre o homem e o meio natural, o que gera a degradação ambiental, por não haver retorno à natureza dos elementos naturais retirados pelo homem.

Vale considerar que o termo “metabolismo” pode ser conceituado neste contexto como a atividade humana que, através do trabalho, se apropria dos elementos materiais naturais, modificando-os e transformando a sua própria natureza,  assumindo assim, o metabolismo um conceito ecológico específico (FOSTER, 2005).

A divisão entre cidade e campo, associada com a falha metabólica imposta pelo sistema econômico capitalista era a causa da preocupação acerca da sustentabilidade dos recursos naturais. Partindo desse princípio, Marx buscava propor a solução dessa problemática, apontando a necessidade de devolver ao solo todos os recursos extraídos da natureza, provenientes da atividade industrial e também do metabolismo humano (FOSTER, 2005).

O sistema capitalista caminha em sentido contrário, quando pretende gerar uma enorme produção em escala, ao mesmo tempo em que não mantém preservadas as fontes naturais, das quais são retiradas as matérias-primas que sustentam materialmente o próprio sistema. Assim, afirma Marx que no capitalismo não se atribui valor à natureza ou ao homem, e sim aos bens produzidos (MARX, 1985). Com isso, se faz clara uma inversão de valores, uma vez que tais produtos somente são valorados quando produzidos pelo homem, e por sua vez, o homem, para produzi-los, provocou alterações na natureza, modificando-a.

Diante do exposto, nota-se a preocupação de Marx com os limites da natureza, colocando como principal causa para sua degradação a divisão entre meio urbano e rural que exclui o homem da natureza, não dando valor assim a sua própria origem e com isso dificultando ainda mais a sua preservação. Torna-se necessária uma interação entre a indústria e a agricultura (que resultaria em um desenvolvimento equilibrado), associada com mecanismos que possam fazer voltar os recursos naturais a sua fonte primária. E vai mais longe Marx, ao afirmar que o foco do problema vai além da alienação do homem com a terra (provocada pela divisão do território), mas também se encontra na propriedade privada, que veio por este a ser chamada de acumulação “primitiva” (FOSTER, 2005).

Com o cercamento das terras, os homens foram destas expulsos, afastados do seu próprio meio de produção, fazendo com que sua única fonte de sobrevivência se desse com a venda de seu trabalho, o que agravaria a situação econômica da massa popular por tempo indeterminado.

Para garantir que esses trabalhadores permanecessem na indústria, após o cercamento da terra, o preço desta foi elevado ao ponto de ser impossível que o trabalhador tivesse condições de adquiri-la. Com isso, acabava por ficar nas fábricas; criando assim um segundo tipo de alienação, a alienação da terra, diferente e ao mesmo tempo cumulativa com a alienação da natureza, resultando portanto, numa “alienação bilateral” (FOSTER, 2005).

  1. Conclusão

Diante do exposto, importante ressalvar a contribuição dada pelo posicionamento teórico de Karl Marx acerca da questão da alienação do homem perante a natureza, base inicial (embora restrita) para a construção e reflexão dos valores ecológicos.

O homem, desde o início do sistema de cercamentos das propriedades privadas, que marcam o ponto inaugural do sistema capitalista da forma como o concebemos hoje, transformou-se em um ser alienado, distanciado de suas origens naturais e ambientais. A partir do momento em que deixou de ter acesso à terra, à natureza e aos produtos de seu trabalho, deixou de se perceber como um ser pertencente ao sistema natural. Assim, transformou-se em mero instrumento para produção dos bens, que representam a própria essência do capitalismo, os quais se tornaram, portanto, mais importantes do que o próprio homem, dentro de uma visão distorcida acerca da vida e da humanidade.

Com o passar do tempo e a consolidação do sistema capitalista, este se tornou cada vez mais uma opção de modelo econômico desigual, motivo pelo qual houve um aumento substancial de trabalhadores miseráveis, principalmente após a Revolução Industrial. Com esta, houve intenso êxodo rural, e grande quantidade de pessoas passou a migrar para as cidades, intensificando o “mar” de homens pobres e excluídos nas grandes metrópoles, sem qualquer estrutura que lhes garantisse uma vida digna.

Assim, a própria situação de miserabilidade desses trabalhadores, os quais viviam e trabalhavam sem as mínimas condições de higiene e salubridade, pode ser entendida como um meio de poluição, já chamada de “poluição universal” por Marx. Fica claro, diante do explanado, que se tratava desde então, de uma degradação do meio ambiente referente ao trabalho, que já existia desde o afloramento do sistema urbano-industrial.

Relevante acrescentar, então, que Marx e Engels defendiam o fim da divisão entre o meio urbano e o rural, pois esta é a causa da alienação do homem perante a natureza, tornando-o alheio à sua origem. Outrossim, somente com o fim dessa separação tão radical é que se poderia imaginar a extinção da alienação bilateral humana, que é aquela do homem perante a natureza e a terra, na qual ainda nos encontramos. Tal situação não encontrou solução efetiva com o passar das décadas, como podemos observar cotidianamente.

Necessário então quebrar essas duas alienações, como forma de se alcançar a preservação do meio ambiente, uma vez que um único proprietário (quando na condição de latifundiário) degrada mais a terra que os pequenos agricultores, daí surge a explicação para a necessidade de se superar a alienação da terra para a garantia de uma economia sustentável.

Destarte, a situação periclitante na qual se encontra a natureza nos tempos atuais, apresenta-se como fruto do sistema capitalista, o qual sempre visou a produção em larga escala, sem qualquer preocupação com as fontes naturais, das quais são retiradas as matérias-primas que sustentam o próprio sistema. Como Marx já ressaltava àquela época, o capitalismo não atribui valor ao homem ou à natureza, mas sim aos bens produzidos.

A superação desta realidade só será possível mediante uma mudança de valores na sociedade aliada a uma mudança estrutural na economia, de modo a valorizar o homem e os recursos naturais e não meramente os bens produzidos. Portanto, quando efetivamente o homem transcender a sua própria alienação ao ponto de não aceitar mais as condições degradantes que o sistema econômico vigente propicia, poderão emergir resultados significantes na preservação dos recursos ambientais e na aplicação dos princípios da dignidade da pessoa humana a partir de um meio ambiente ecologicamente equilibrado.

  1. Bibliografia

BRANCO, Samuel Murgel. Ecossistêmica. 2º ed. São Paulo: Edgard Blucher, 1999.

CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 10º ed. São Paulo: Ática, 1998.

CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia. 2º ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

FOSTER, John Bellamy. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1985.

MARX, Karl. O Capital. Vol. I. Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril Cultural, 1985.

SINGER, Paul. Dinâmica populacional e desenvolvimento. 2º ed. São Paulo: Hucitec, 1976.

 

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